quarta-feira, 18 de junho de 2008

Desenhos * Croquis * Rabiscos

Materiais
Se se pretende tornar a intenção de expressão tangível, é essencial ter um entendimento e sensibilidade para com os materiais, suas potencialidades e suas limitações.


Flexibilidade
Isto se refere à capacidade para adaptar todas as habilidades e conhecimentos a qualquer problema ou julgamento artísticos, novo ou diferente com que se deparar. Um artista flexível será capaz de trabalhar livre, grande, pequeno, por partes, do geral, rápido, devagar, cuidadosamente; ele será capaz de construir visando destruir ou destruir objetivando construir.



Fruto seco. Aquarela
Depoimento:
Geórgia Kyriakakis


Desenho como matriz


“Iniciei meus estudos em arte por meio do desenho, mais especificamente com grafite sobre papel. Logo compreendi que em meu desenho não cabia o arrependimento; não havia conserto nem esconderijo para um gesto duvidoso. Tudo nele, mesmo a linha mais leve ou a marca mais tênue, era como uma profunda incisão irreversível. Para realizá-lo, era sempre necessária uma certa dose de coragem e determinação.”

“A primeira lição que o desenho me ensinou foi a necessidade de uma atitude contundente perante o fazer – saber correr os riscos que cada trabalho apresenta. Quando hoje opero a partir dos limites entre o equilíbrio e a instabilidade – quando tenciono o limite de permanência e fragilidade das coisas –, é como se estivesse constantemente transportando para o mundo físico e concreto o perigo que um gesto gráfico carrega e a precisão que ele requer.”
Disegno, Desenho, Desígnio, 2007. ED. SENAC. p.161


Alguns desenhos realizados em visitas ao Parque da Pedra da Cebola e à Ilha do Frade. Vitória ES


Parque Pedra da Cebola , Ilha do Frade e Praia do canto








Jogos Rúnicos

Pinturas
Acrílica sobre tela

Na série "Jogos rúnicos" o uso de glifos do alfabeto das runas foi a chegada de um caminho percorrido desde 1990 quando alguns sinais gráficos surgiram na construção de alguns projetos.


Runas de barro feitas por mim

Realizamos então alguns estudos sobre sinais, símbolos e arquétipos da história do homem e, obrigatoriamente, passeamos pela origem da escrita dos povos primitivos. Esse caminho nos conduziu ao estudo do alfabeto rúnico, no qual nos deparamos com muitos daqueles sinais gráficos surgidos aleatoriamente em muitos desenhos.

O surgimento das runas na história abrange períodos que vão desde a Pré-História a 500 aC , reaparecendo na Idade Média. Cada glifo rúnico é uma letra e também uma palavra; estão associadas à energia dos planetas e se constituem num oráculo. A linguagem das runas fala dos nossos medos e motivações, são símbolos sagrados aos quais se atribuem poderes mágicos e cuja origem está nos símbolos de culto pré-histórico.

Na série de pinturas "Jogos rúnicos", conhecendo então o significado de cada sinal/glifo, trabalhamos ludicamente organizando um espaço onde a grafia e as cores claras constituíssem um sentido de multidimensionalidade, e no qual formas meio difusas flutuam.









Objetos pintados com talismãs rúnicos

Scalata

"Eu, que contemplo o azul do céu, não sou diante dele um sujeito acósmico, não o possuo em pensamento, não desdobro diante dele uma idéia de azul que me daria seu segredo, abandono-me a ele, enveredo-me nesse mistério, ele " se pensa em mim", sou o próprio céu que se reúne, recolhe-se e põe-se a existir para si, minha consciência é obstruída por esse azul ilimitado. "

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. 1999. Martins Fontes. p.289


Série Scalata
2004
pinturas . acrílica sobre linho


...azuis




À primeira vista, são manchas que se movem, nuvens azuis e ocres. Por baixo delas, o azul compacto é produto de camadas que se adensam fazendo o etéreo parecer sólido. Na verdade, as manchas são milhares de fibras de uma tecitura muito fina. Parte dela configura planos frontais que se organizam de modo vagamente geométrico e se sucedem em profundidade. A outra parte parece nuvem a soltar-se da primeira para diluir seus contornos e apagar as diferenças.
Tudo parte de um fundo escuro que tende a engolir a luz. Por isso as cores são turvas. No entanto, a luz se impõe pela reiteração e pela saturação. É a compactação das finas camadas de cor e, ao mesmo tempo, a sua dissolução em névoa que faz surgir, junto ao fundo escuro com o qual se mantém em constante tensão, o espaço visível destas pinturas. É do todo indiferenciado da escuridão que emerge a individuação dos planos que se sobrepõem.
São portanto dois mundos que se encontram: por baixo, a escuridão absorvente mas também fundadora; por cima, a luz turva a dar conformidade a um espaço sempre em reconfiguração. Ambos se precisam e se tensionam. Atravessando um e outro, emergindo entre véus, torres e anjos, casas e escadas aguardam reinterpretação. Mais tangíveis na forma, desafiam nosso poder de compreensão e necessidade permanente de dar sentido ao informe.

Lincoln G. Dias
Professor do Centro de Artes da UFES
Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP


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